segunda-feira, 24 de maio de 2010

Formação de equipes produtivas

Espaguete para o jantar

Imagine-se no lugar de um técnico que acabou de receber a incumbência de um novo projeto. Você conhece a gerente e a maioria do pessoal envolvido por seus nomes, mas é só. Seu primeiro dia no novo projeto é a próxima segunda-feira. Na quarta-feira anterior, você recebe uma ligação de sua futura chefe. Ela vai fazer uma reuniãozinha para as pessoas do novo projeto. Seria possível que você fosse a sua casa na quinta à noite para um jantar com o restante do grupo? Você não tem nenhum compromisso e quer conhecer o novo grupo, assim sendo, você aceita o convite.

Quando você chega lá, todo mundo está reunido na sala de estar, bebendo cerveja e contando estórias. Você se junta a eles e conta algumas de suas próprias estórias. O representante do cliente, que também foi convidado, fala um pouco sobre seu chefe de departamento. Todos tomam mais uma cerveja. Você começa a se perguntar sobre a comida. Não existe nenhum cheiro e nenhum sinal de que alguém esteja trabalhando na cozinha. Finalmente, sua chefe admite que não teve tempo de preparar o jantar, e sugere que toda a tripulação vá ao supermercado mais próximo e consiga algumas coisas para preparar uma refeição. “Eu acho que nós devemos ser capazes de preparar um espaguete juntos.”

Os efeitos da equipe começam a aparecer.

Lá vai você. No supermercado, vocês marcham como um grupo entre as prateleiras. Ninguém se aventura. A sua chefe parece não pensar em nada mais além do jantar. Ela papeia, ri e conta uma estória sobre o Imposto de Renda. Apesar de uma falta de direção generalizada, acabam sendo jogadas algumas coisas dentro do carrinho. Um já conseguiu dar conta da salada muito bem. Surge a idéia de se fazer um molho com mariscos, e como ninguém se opõe, dois de seus novos colegas começam a discutir detalhes do tal molho. Você decide fazer o seu famoso pão de alho. Outro pega uma garrafa de Chianti. Finalmente, chegam ao consenso de que o carrinho já tem coisas suficientes para o jantar.

De volta à casa, todos colocam as compras na cozinha e a chefe apanha outra cerveja e lhes conta sobre uma nova ferramenta de software. Aos poucos a festa começa a gravitar em torno da cozinha, onde alguns preparativos estão começando. Sua chefe não dá nenhuma orientação, mas ela se atira no trabalho de cortar as cebolas quando alguém sugere que precisa delas. Você começa a fritar o azeite e o alho. O molho borbulha e o espaguete está cozinhando. Gradualmente o jantar vai ficando pronto. Todos vocês comem até não poderem mais e depois compartilham a lavagem da louça.

O que está acontecendo aqui?

Até agora, ninguém cumpriu um único dia de trabalho para o projeto, mas vocês já tiveram seu primeiro sucesso como um grupo. O sucesso provoca sucesso, e a harmonia produtiva produz mais harmonia produtiva. Suas chances de se consolidarem em uma equipe significativa são aumentadas por esta primeira experiência juntos.

Apresentado desta forma, esse espaguete pode parecer uma tramóia do gerente. Mas não seria essa a sua impressão se você estivesse lá. Se você perguntasse à gerente em questão o que ela teria planejado para aquela noite, ela provavelmente teria respondido com toda a sinceridade, “Um jantar”. Um gerente natural tem um sentimento subconsciente do que é bom para a equipe. Esse sentimento pode governar as suas decisões durante todo o projeto. Toda a experiência é organizada em torno de sucessos pequenos e conjuntos. Você tem que olhar duas vezes antes de ver a mão do gerente em tudo isso, tudo parece acontecer espontaneamente.

Durante anos ouvimos variações da estória do espaguete sob formas diferentes e sobre gerentes diferentes. A linha geral é que os bons gerentes fornecem oportunidades freqüentes e fáceis para que a equipe seja bem-sucedida em conjunto. As oportunidades podem ser pequenos subprojetos piloto, ou demonstrações, ou simulações, tudo que dê rapidamente à equipe o hábito de fazer sucesso juntos. O melhor de todos os sucessos é aquele em que não há um gerenciamento evidente, no qual a equipe trabalha como uma agregação genial de camaradas. O melhor chefe é aquele que pode gerenciar continuamente sem que os membros saibam que estão sendo “gerenciados”. Esses chefes são vistos pelos colegas simplesmente como sortudos. Tudo parece dar certo para eles. Eles têm uma equipe de pessoas engrenadas, o projeto é desenvolvido rapidamente, e todos permanecem animados até o fim. Esses gerentes nunca suam. Tudo parece tão fácil que ninguém acredita que eles estejam gerenciando alguma coisa.


Texto extraído do livro PEOPLEWARE, escrito por Tom DeMarco e Timothy Lister, Ed. Makron Books McGraw-Hill, 1990.

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